segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

2 - CONTO DE NATAL

Por Maria José Azevedo

Naquele país distante, todos os dias eram dia de natal. Havia sempre neve. As árvores gemiam sob o seu manto alvo, os pássaros e os esquilos tinham sempre aquele ar de postal de natal. As pessoas andavam sempre vestidas de belos agasalhos, luvas de lã, gorros de pele, botas e impermeáveis forrados de pelo. As ruas estavam sempre enfeitadas com lindas iluminações, as montras das lojas ofereciam as melhores promoções, os passeios sempre cheios de gente atarefada a comprar presentes e até as árvores estavam permanentemente decoradas com grinaldas cheias de brilho, luzes a piscar, bolinhas suspensas de várias cores e outras vezes eram laços, ou gatinhos, ou meias, ou caixinhas atadas com delicados nós, ou outra coisa qualquer. Nas parte mais chique da cidade, as árvores só tinham enfeites de uma cor. Ou só bolinhas vermelhas, ou só douradas. Assim como os laços. Nessas árvores não havia decorações com gatinhos. Não fazia parte da tradição. Dentro das casas, para além das coroas de azevinho, havia ainda coloridos enfeites pendurados nos candeeiros, nas paredes, nas janelas e nas portas e em algumas casas, havia presépios, em que um casal, umas vezes muito velhos, outras vezes demasiado novos, olhavam embevecidos para um menino invariavelmente  nú, ora deitado em palhinhas, ora deitado numa almofadinha de seda,   sempre rodeado de um burrinho e de uma vaca e por vezes, também por três reis magos, o que tornava muito complicado a limpeza do pó e as empregadas de limpeza já andavam a conspirar que seria muito mais prático ter uma fotografia, porque de vez em quando lá se soltava uma palhinha e o berço ficava ainda mais nú e o incenso e a mirra, ao fim e ao cabo já tinham perdido o cheiro há muito tempo, porque do ouro, nem sequer havia já memória. E não eram as únicas pessoas a queixar-se. Havia um homem, sempre velho e de barbas brancas, vestido com um bizarro fato vermelho que lhe ficava muito mal e a quem chamavam Painatal,  que estava sempre a queixar-se do trabalho que tinha, que a tradição devia deixar de ser o que era, porque ele nunca tinha  férias e já estava farto de ir a casa das pessoas todos os dias levar prendas e até a mulher dele já andava farta de dormir sozinha as trezentas e sessenta e cinco noites do ano. Ela sabia que não era a única mulher a dormir sozinha, mas  essa sua intimidade era tão púbica que a estava a incomodar, sobretudo quando as amigas lhe diziam, os teus filhos são mesmo a cara chapada do pai. Ela já tinha equacionado pedir o divórcio, mas ainda não tinha surgido o momento próprio, porque de noite o  marido ia trabalhar e de dia, estava a dormir.

Nos breves tempos livres, entre a saída da cama e a saída para o emprego, os filhos saltavam para o colo do Painatal e posavam, sorridentes, para as fotografias que decoravam paredes e paredes da cave até ao sótão. De maneira que a senhora Painatal andava a ficar farta daquelas natalidades todas e dos bolos reis, e das filhós e das rabanadas que lhe estavam a engordar os quadris e decidiu que na impossibilidade de ir para o ginásio por falta de tempo, tinha de tomar medidas drásticas, a tempo. E foi assim que um dia de manhã depois do Painatal adormecer, a senhora Painatal, se montou nas renas e partiu para uma terra distante, onde o natal só acontece uma vez  por ano.
                                                                                                           FIM



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