Por Madalena Fonte
O ano era o de 1963. O local, uma aldeia, igual às outras, no norte do país.
Uns poucos dias antes do Natal as crianças andavam excitadas com a perspetiva das prendas que o Menino Jesus iria pôr no sapatinho. Os irmãos discutiam acaloradamente sobre as prendas que mais gostariam de receber: carros e bolas. Se alguns não tinham dúvidas, outros não se decidiam. A irmã mais nova, com apenas cinco anos, pensava nos brinquedos que tinha visto na feira, durante a grande festa anual. Perante os seus olhos desfilavam, as bonecas - uma tentação; os lápis de cor, dentro das suas caixas de cartão, com aquele aroma tão familiar: as louças em miniatura, de alumínio e o respetivo fogão, pintado de branco; os carrinhos, de metal colorido, que imitavam carros verdadeiros… Ela imaginava-se a brincar com todos eles e não conseguia escolher o que devia pedir! E o dia de Natal aproximava-se rapidamente.
Enquanto a mãe se atarefava na cozinha, as crianças foram apanhar musgo e azevinho para fazerem o presépio. O dia estava cinzento e frio mas eles nem se apercebiam. Pelo caminho, por entre as brincadeiras e correrias com os irmãos, ela tentava escolher o presente perfeito, aquele com que lhe daria mais prazer brincar. Começava até a ficar um bocadinho ansiosa, era preciso pedir, senão o Menino Jesus não saberia o que lhe trazer, podia até vir a receber uma coisa de que não gostasse…
No dia da consoada o entusiasmo era geral: as mulheres ultimavam a ceia, os mais novos ajudavam no que podiam, até os homens mostravam interesse pelo andamento dos preparativos. O ponto alto era, como de costume, a iluminação do pinheiro de Natal. Esta tarefa tinha de ser supervisionada pelos adultos, já que era de grande responsabilidade. Os pequenos castiçais, cada um com a sua vela, eram presos aos galhos da árvore, com muito cuidado, para não provocar um incêndio. Depois era só acender!
Naquele ambiente caloroso, próprio das festividades, a menina teve finalmente a certeza do que é que desejava. Com os irmãos, começou logo a antecipar o dia seguinte com os presentes que recebesse. No meio daquela grande algazarra, uma dúvida assaltou-a, de súbito: e se o Menino Jesus não soubesse o que ela queria? Afinal, só agora tinha decidido! De acordo com o conselho dos irmãos, ela abriu a porta da cozinha, foi ao alpendre e, olhando o céu escuro e frio, em voz alta formulou o seu desejo de Natal.
No dia seguinte, mal acordaram, os garotos correram para a chaminé. Olhos ansiosos procuraram os respetivos sapatos. Depois de se desembaraçarem de papeis e fitas só se ouviam excitadas exclamações:
- olha, é mesmo o que eu queria!
- também eu, vê o que eu tive!
A próxima paragem foi no quarto dos pais: vejam o que o Menino Jesus nos trouxe!
A mais pequena, a última a chegar, também saltou para cima da cama:
- Foi mesmo isto que eu pedi!
A menina não cabia em si de contente. Nem acreditava na sua sorte! Devido ao pedido tardio e às dúvidas que já tinha sobre a origem dos presentes de Natal, ela estava com receio de não ser atendida, mas o conjunto de louças de alumínio, dentro do camião de madeira que tinha bem agarrado com ambas as mãos, reforçaram a sua crença no espírito de Natal.
FIM
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