segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

4 - AQUELE PINHEIRO


Por Helena João

Aquele pinheiro não era um pinheiro qualquer. Não habitava num qualquer pinhal negligenciado pela presença de eucaliptos, essa árvore da moda. Não. Aquele pinheiro era um pinheiro especial. Tinha uma história! Tinha uma vida da qual se orgulhava!

Começara-a como qualquer outro. Não fora um pinhão diferente dos demais. A pinha que lhe dera origem não tinha nada de transcendente. Perguntar-se-á o leitor, o que diferencia aquele pinheiro das restantes coníferas do género Pinus.

Pois bem, comecemos a nossa história.

O pinhão de onde germinara fora acidentalmente plantado por um esquilo, ávido de preservar suprimentos para mais um Inverno. Não sabemos o que aconteceu ao esquilo, nem porque razão não voltou ele ao seu esconderijo para resgatar o pinhão e fazer dele repasto. Mas a verdade é que foi exactamente isso que sucedeu. Não tendo sido retirado do solo pelo esquecido esquilo, o pinhão aproveitou a Primavera seguinte para fazer aquilo para que estava programado. Germinar, pois claro. O solo fértil, a estação solarenga e os chuviscos primaveris, foram só o que bastou para que daquele raquítico pinhão surgisse o primórdio do nosso pinheiro. Os anos seguintes foram passados na pacatez do crescimento. Afinal, que mais se pode pedir a um pé de pinheiro que faça? Á sua volta cresciam outros como ele, esvoaçavam aves e insectos, restolhavam pequenos roedores. Mas certo dia, vieram umas pessoas, seis ou sete, munidas de pás, vasos e sacos de terra. Começaram por observar atentamente os jovens pinheiros. Parecia que mediam com o olhar a altura dos troncos, o comprimento de cada ramo, a homogeneidade das agulhas. Escolheram, cada um o seu pinheiro e iniciaram a meticulosa tarefa de os arrancar do chão sem danificar as raízes. Para aquele pinheiro, o nosso, foi como se de uma pequena tortura se tratasse. Sentiu-se sufocado, como peixe fora de água, como mamífero dentro dela, enfim, como pinheiro a quem tiram a terra de cima. Mas rapidamente foi transplantado para um dos tais vasos com terra e a curiosidade superou o mau momento anterior. Onde iria ele? Deu consigo num estranho aglomerado de plantas em vaso a que os humanos dão o nome de horto. Habituou-se depressa às comodidades deste modo de vida. Já não precisava de esperar pela chuva ou por rasgos de sol que penetrassem no denso pinhal onde habitava. Era regularmente regado pelos humanos, punham-lhe adubo na terra, colocavam-no ao sol ou à sombra consoante o necessário. Não se lembra exactamente quanto tempo viveu assim, mas lembra-se de ter crescido mais um ou dois centímetros e de ter desenvolvido ramos mais frondosos. Se é que se pode chamar frondoso a um pinheiro. Mas adiante na história. A estação mudou entretanto e outras árvores, as que não eram perenes como ele, começaram a perder a folha. Vieram ventos e chuvas e ele foi mudado para o interior de uma estufa, no horto. Foi cerca de uma semana após essa mudança para a estufa, que o seu mundo foi agitado novamente. Uma família composta por dois humanos grandes e dois mais pequenos e bastante barulhentos foi visitá-lo, a ele e a outros pinheiros que lá estavam. Não demoraram muito a decidir-se por ele porque, modéstia à parte, era mesmo o mais bonito de todo o horto. Levaram-no para uma carrinha grande, semelhante àquela onde já tinha andado quando o retiraram do pinhal e, daí, para o interior de uma casa. Curioso, pensou. Não me parece que esteja inscrito no meu ADN que eu seja uma planta de interior… Enquanto meditava sobre este assunto foi colocado em cima de uma mesa, num cantinho da sala. O vaso onde permanecia foi regado e depois enfeitado com folha de alumínio e musgo. Os humanos grandes azafamavam-se à sua volta, pendurando iluminações. Os pequenos e barulhentos dançavam e cantavam atrapalhando a tarefa. Ao início teve algum receio, pareciam-lhe loucas aquelas criaturas. Mas gradualmente foi perdendo o medo e acabou por achá-los simpáticos, apesar de um pouco extravagantes. Depois das iluminações seguiram-se bolas, bonecos e outros brinquedos variados e fitas fininhas, como se fossem cabelos. No seu topo puseram uma estrela e à frente do seu vaso um boneco curioso. Era um senhor gordo e corado, vestido de vermelho, de barbas brancas e sorriso contagiante. Ouviu um dos humanos grandes dizer ao pequeno - foi dado à tua avó quando ela nasceu, tem quase setenta anos, este Pai Natal. Ao longo dos dias seguintes foi ouvindo muitas conversas acerca dessa tal coisa, o Natal. Aparentemente era uma festa. Celebrava-se o nascimento de alguém importante e o senhor gordo, o do boneco, vinha com presentes. Isto se os pequenos e barulhentos se portassem bem, claro. Para além dos presentes do Pai Natal, haveria outros dados pelos familiares. Aos poucos e poucos esses presentes foram chegando e sendo postos à volta do pinheiro. Aquele, o nosso. No dia de Natal estava mais bonito que nunca. Talvez tivesse crescido mais um pouco ou talvez apenas se sentisse ufano pela importância que lhe davam. Fora elogiado por todos os convivas e não houve ninguém que não quisesse tirar uma fotografia ao seu lado. Sentiu que a felicidade suprema era isto. Não era preciso estar no pinhal rodeado de pássaros e pequenos mamíferos. Aquela era a sua família. Todos os presentes que estavam à sua volta foram abertos nesse dia e os pequenos estavam mais barulhentos e agitados do que nunca.

Quando já estava plenamente convicto que ficaria para todo o sempre assim, enfeitado e naquele canto da sala, começaram a retirar-lhe os enfeites. Mas que se passa? Haverá outra festa que requeira bonecada diferente? Nada disso. Num ápice estava de novo nu, coberto apenas pelas suas agulhas e uma ou outra gota de resina. Pior do que isso, num ápice estava no quintal. Dentro do vaso onde viera, mas no quintal. Já não conseguia ouvir as conversas dos grandes nem as gargalhadas dos pequenos, já não era o centro das atenções. Já nem o regavam como dantes. Parecia que confiavam na chuva para o fazer. E teve medo. Teve mais medo do que naquela altura em que o tiraram do pinhal. Teve medo e já não estava curioso com o que se passaria a seguir. Afeiçoara-se àquelas criaturas bípedes. Pronto. Não queria ser só um pinheiro. Nestes tristes pensamentos passou o tempo suficiente para que voltasse a estação solarenga. Os dias bonitos e já mais compridos convidavam a sair e com isso o nosso pinheiro ganhou novamente a companhia dos humanos. Que vamos fazer a este pinheiro, ouviu um deles perguntar. Não sei, este ano já não vai caber na sala para o Natal, disse o outro. Tens razão, mas custa-me deitá-lo fora, volveu o primeiro. Deitá-lo fora?! Aquele pinheiro, o nosso, o que já tinha passado por tanto, tido e dado tantas alegrias, estremeceu e, podemos garantir, perdeu meia dúzia de agulhas. A minha pobre seiva não aguenta tanta emoção forte. Ainda caio para o lado, como que fulminado por um raio, pensou. Deitá-lo fora não, vamos plantá-lo. E se bem o pensaram, melhor o fizeram. Hoje, quase duas décadas passadas após esse primeiro Natal, aquele pinheiro, o nosso, ainda lá está. Tão crescido que já ultrapassa o telhado da casa. Tão crescido que já tiveram que lhe podar ramos mais altos que o mais alto dos humanos. Tão crescido que já não há bolas, nem bonecos, nem fitas suficientes para o enfeitar no Natal. Apenas lhe põem as iluminações. Mas não faz mal. Tão feliz que ele está. Aquele pinheiro, o nosso, o do Natal.

                                                                                        FIM


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