Por Helena João
Aquele pinheiro não era um pinheiro qualquer. Não
habitava num qualquer pinhal negligenciado pela presença de eucaliptos, essa
árvore da moda. Não. Aquele pinheiro era um pinheiro especial. Tinha uma
história! Tinha uma vida da qual se orgulhava!
Começara-a como qualquer outro. Não fora um pinhão
diferente dos demais. A pinha que lhe dera origem não tinha nada de
transcendente. Perguntar-se-á o leitor, o que diferencia aquele pinheiro das
restantes coníferas do género Pinus.
Pois bem, comecemos a nossa história.
O pinhão de onde germinara fora acidentalmente
plantado por um esquilo, ávido de preservar suprimentos para mais um Inverno.
Não sabemos o que aconteceu ao esquilo, nem porque razão não voltou ele ao seu
esconderijo para resgatar o pinhão e fazer dele repasto. Mas a verdade é que
foi exactamente isso que sucedeu. Não tendo sido retirado do solo pelo
esquecido esquilo, o pinhão aproveitou a Primavera seguinte para fazer aquilo
para que estava programado. Germinar, pois claro. O solo fértil, a estação
solarenga e os chuviscos primaveris, foram só o que bastou para que daquele
raquítico pinhão surgisse o primórdio do nosso pinheiro. Os anos seguintes
foram passados na pacatez do crescimento. Afinal, que mais se pode pedir a um
pé de pinheiro que faça? Á sua volta cresciam outros como ele, esvoaçavam aves
e insectos, restolhavam pequenos roedores. Mas certo dia, vieram umas pessoas,
seis ou sete, munidas de pás, vasos e sacos de terra. Começaram por observar
atentamente os jovens pinheiros. Parecia que mediam com o olhar a altura dos
troncos, o comprimento de cada ramo, a homogeneidade das agulhas. Escolheram,
cada um o seu pinheiro e iniciaram a meticulosa tarefa de os arrancar do chão
sem danificar as raízes. Para aquele pinheiro, o nosso, foi como se de uma
pequena tortura se tratasse. Sentiu-se sufocado, como peixe fora de água, como
mamífero dentro dela, enfim, como pinheiro a quem tiram a terra de cima. Mas
rapidamente foi transplantado para um dos tais vasos com terra e a curiosidade
superou o mau momento anterior. Onde iria ele? Deu consigo num estranho
aglomerado de plantas em vaso a que os humanos dão o nome de horto. Habituou-se
depressa às comodidades deste modo de vida. Já não precisava de esperar pela
chuva ou por rasgos de sol que penetrassem no denso pinhal onde habitava. Era
regularmente regado pelos humanos, punham-lhe adubo na terra, colocavam-no ao
sol ou à sombra consoante o necessário. Não se lembra exactamente quanto tempo
viveu assim, mas lembra-se de ter crescido mais um ou dois centímetros e de ter
desenvolvido ramos mais frondosos. Se é que se pode chamar frondoso a um
pinheiro. Mas adiante na história. A estação mudou entretanto e outras árvores,
as que não eram perenes como ele, começaram a perder a folha. Vieram ventos e
chuvas e ele foi mudado para o interior de uma estufa, no horto. Foi cerca de
uma semana após essa mudança para a estufa, que o seu mundo foi agitado
novamente. Uma família composta por dois humanos grandes e dois mais pequenos e
bastante barulhentos foi visitá-lo, a ele e a outros pinheiros que lá estavam.
Não demoraram muito a decidir-se por ele porque, modéstia à parte, era mesmo o
mais bonito de todo o horto. Levaram-no para uma carrinha grande, semelhante
àquela onde já tinha andado quando o retiraram do pinhal e, daí, para o
interior de uma casa. Curioso, pensou. Não me parece que esteja inscrito no meu
ADN que eu seja uma planta de interior… Enquanto meditava sobre este assunto
foi colocado em cima de uma mesa, num cantinho da sala. O vaso onde permanecia
foi regado e depois enfeitado com folha de alumínio e musgo. Os humanos grandes
azafamavam-se à sua volta, pendurando iluminações. Os pequenos e barulhentos
dançavam e cantavam atrapalhando a tarefa. Ao início teve algum receio,
pareciam-lhe loucas aquelas criaturas. Mas gradualmente foi perdendo o medo e
acabou por achá-los simpáticos, apesar de um pouco extravagantes. Depois das
iluminações seguiram-se bolas, bonecos e outros brinquedos variados e fitas
fininhas, como se fossem cabelos. No seu topo puseram uma estrela e à frente do
seu vaso um boneco curioso. Era um senhor gordo e corado, vestido de vermelho,
de barbas brancas e sorriso contagiante. Ouviu um dos humanos grandes dizer ao
pequeno - foi dado à tua avó quando ela nasceu, tem quase setenta anos, este
Pai Natal. Ao longo dos dias seguintes foi ouvindo muitas conversas acerca
dessa tal coisa, o Natal. Aparentemente era uma festa. Celebrava-se o
nascimento de alguém importante e o senhor gordo, o do boneco, vinha com
presentes. Isto se os pequenos e barulhentos se portassem bem, claro. Para além
dos presentes do Pai Natal, haveria outros dados pelos familiares. Aos poucos e
poucos esses presentes foram chegando e sendo postos à volta do pinheiro.
Aquele, o nosso. No dia de Natal estava mais bonito que nunca. Talvez tivesse
crescido mais um pouco ou talvez apenas se sentisse ufano pela importância que
lhe davam. Fora elogiado por todos os convivas e não houve ninguém que não
quisesse tirar uma fotografia ao seu lado. Sentiu que a felicidade suprema era
isto. Não era preciso estar no pinhal rodeado de pássaros e pequenos mamíferos.
Aquela era a sua família. Todos os presentes que estavam à sua volta foram
abertos nesse dia e os pequenos estavam mais barulhentos e agitados do que
nunca.
FIM
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